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riscos_e_rabiscos

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Injustiças

Aqui na minha zona, há um centro de formação profissional (até há mais) que fica perto de uma das paragens do autocarro que me leva para o colégio.

De há umas semanas para cá, têm entrado duas moças que me pareciam de etnia cigana. Mas como não gosto de estar a olhar fixamente para as pessoas a observá-las, ainda não tinha conseguido ter a certeza. Mas pela maneira de falar, de pentear e até de alguns trejeitos na fala, assim me pareciam.

 

Pelo que percebi, elas devem estar a tirar algum curso. Talvez obrigadas para receberem o rendimento mínimo ou o rendimento de inserção social, como quiserem designar. Não sei muito bem qual a necessidade disto mas também não é para eu entender. Afinal de contas, esse curso terá muito poucas possibilidades de ser exercido. Conheço apenas uma cigana que não vai trabalhar para a venda e que trabalha numa loja mas também ela não é igual aos outros e nem se mistura. Até o modo de vida é diferente.

 

Hoje, as tais moças entraram de novo no autocarro e eu obtive a certeza absoluta de que eram ciganas: a conversa que elas iam a desenrolar assim o comprovou. Era impossível não ouvi-las já que elas vinham sentadas atrás de mim e falavam alto. E foi aqui que ouvi o que me deu a volta às entranhas. Uma delas contava à outra o que o irmão tinha ganho na venda em dois dias: na feira A ganhou 50 contos e na feira B ganhou 80 contos. Isto é, só em dois dias ganhou 650 euros! Se calhar nem trabalhou nos outros dias, pois se ganhar isto por semana, ao fim do mês terá auferido 2.600 euros. Como não fazem descontos de espécie nenhuma, é só lucro. Despesas? Só se for a enfardar bolos nos cafés, que é o que aqui fazem, e a fazer autênticas passagens de modelos durante todo o dia. Eles e elas. 

Despesas? As casas foram-lhes atribuídas pela Câmara Municipal e a renda deve ser cerca de 5 euros, água e luz pouco devem pagar pois o dia deles é passado na rua faça chuva ou faça sol, faça calor ou faça frio.

E os carros? Muitos deles de alta cilindrada, que um trabalhador "normal" nunca teria posses para comprar. A não ser que se endivide até ao pescoço.

 

Aquilo que me revolta as entranhas é que eu farto-me de trabalhar, sou obrigada a pagar os impostos todos, ninguém me dá absolutamente nada e recebo 200 euros ao fim do mês (foi o meu vencimento o mês passado). E se precisar de uma qualquer ajuda mandam-me dar uma curva porque trabalho a recibos verdes e não tenho direito a nada. Ai não tens dinheiro para comer ou para pagar a casa?! Azar! Não existisses e não te tivesses metido numa casa - super barata mas que mesmo assim vai custando a pagar - e agora vai para debaixo da ponte! É isto que o estado me dirá, caso eu precise dele. 

 

E é isto que me revolta, porque é que esta gente não faz descontos e tem direito a tudo e o rabinho lavado com água de malvas? Talvez se os obrigassem a pagar, não fosse preciso "roubar" tanto ao comum trabalhador, nem à função pública. Talvez fosse a solução para colmatar a crise.